A grande queda do bitcoin (BTC) ao longo de 2026, de mais de 25%, pode significar uma chance para investidores de longa duração, conforme relatório divulgado pelo BTG Pactual.
Conforme o banco, a desvalorização superior a 50% em relação ao pico histórico de US$ 126 mil, alcançado em outubro de 2025, não sinaliza uma deterioração da tese de investimento na criptomoeda.
Pelo contrário, os analistas Vinicius Bitelo e Matheus Parizotto, responsáveis pelo documento, defendem que o mercado experimenta uma rara discrepância entre preço e fundamentos, que, historicamente, resultou em retornos mais atrativos.
“A interpretação é que o momento favorece uma aquisição gradual do ativo, não uma busca pelo ponto exato de virada”, escreveram os dois.
Conforme a dupla, o bitcoin está atualmente em meio aos 10% dos momentos mais desvalorizados de sua série histórica, considerando um conjunto de indicadores on-chain e técnicos (entenda abaixo).
Por que o bitcoin declinou?
Segundo Bitelo e Parizotto, a intensa correção do BTC foi originada principalmente por três elementos que minaram a procura pela criptomoeda nos meses recentes.
O primeiro deles foi a transferência de capital para firmas ligadas à inteligência artificial (IA). Isso se deu porque, sob a ótica da dupla, os avanços nesse campo fizeram investidores direcionarem recursos às ações do ramo de tecnologia, reduzindo a alocação em ativos alternativos, como criptomoedas, ouro e prata.
“O impacto foi além das criptomoedas. O IGV, principal ETF de software do setor, também enfrentou uma correção de cerca de 37% das máximas nos últimos meses”, afirmam.
“Em paralelo, ETFs de ouro e prata, que atraíram volumes relevantes nos trimestres anteriores, observaram retiradas importantes e regressões de aproximadamente 30% e 50%, respectivamente. Bitcoin e criptomoedas, desse modo, não sofreram isoladamente.”
Compradores habituais perderam vapor
Segundo a dupla, o segundo fator que contribuiu para pressionar os valores foi a perda de força dos compradores assíduos de bitcoin, em especial os ETFs norte-americanos e as corporações que mantêm a criptomoeda em seus balanços.
Vistos como uma das principais fontes de demanda pela criptomoeda desde o início, os ETFs de bitcoin nos EUA chegaram a acumular US$ 35,2 bilhões em novas entradas em 2024 e mais US$ 21,4 bilhões em 2025.
Nos meses recentes, contudo, houve uma inversão no fluxo: somente em junho, registraram US$ 4,51 bilhões em saídas líquidas, o recorde mensal mais alto da história.
No acumulado do primeiro semestre de 2026, as retiradas totalizaram US$ 5,46 bilhões.
Além disso, conforme o BTG, companhias que vinham adquirindo bitcoin para suas reservas diminuíram o ritmo de compras, visto que a queda das ações dessas empresas complicou novas captações de recursos.
“Veículos preferenciais usados por parte dessas empresas para captação também passaram a ser negociados abaixo do valor de referência, restringindo ainda mais a obtenção de novas aquisições. Assim, ao mesmo tempo em que os ETFs registravam resgates recordes, o comprador que tradicionalmente absorvia parte desse suprimento parou de atuar com a mesma força.”
Reprecificação de juros intensificou a pressão
O terceiro fator mencionado no relatório é o panorama macroeconômico.
Conforme os analistas, com a perspectiva de taxas de juros mais altas nos Estados Unidos, aumentou-se o custo de oportunidade de investir em ativos que não geram fluxo de caixa, como bitcoin, ouro e prata, o que agravou ainda mais as cotações.
“Taxas de juros mais altas aumentam o custo de oportunidade. A mesma lógica também pressionou setores de tecnologia mais sensíveis ao crescimento.”
Fundamentos continuam preservados
O BTG afirma, no entanto, que os três vetores que contribuem para a explicação da queda não impactam a estrutura do bitcoin ou do mercado de ativos digitais.
Na realidade, segundo o banco, os alicerces que sustentam a tese de investimento permanecem sólidos. Entre eles, os analistas mencionam:
“O argumento primordial para o bitcoin segue sendo o risco de depreciação gradual e constante do poder de compra das moedas fiduciárias ao longo do tempo. Desde 2008, e novamente após 2020, ficou evidente que a reação padrão a abalos econômicos tende a envolver redução artificial de juros, ampliação da base monetária e crescimento dos balanços dos bancos centrais”, diz o relatório.
“Essas medidas podem ser requeridas para estabilizar a economia no curto prazo, mas reforçam a preocupação com a preservação do poder de compra das moedas no longo prazo”, prossegue.
Reserva de valor e geopolítica
O BTG também ressalta que a tese está atrelada ao contexto geopolítico recente, marcado, conforme o banco, “pelo aumento de conflitos armados, protecionismo econômico, sanções e fragmentação de blocos”.
“O congelamento de cerca de US$ 300 bilhões em reservas russas e as restrições ao Irã evidenciaram que ativos podem ser bloqueados de acordo com a jurisdição de custódia. Para o bitcoin, essa discussão adiciona uma camada geopolítica à tese monetária. O ativo ainda é jovem e volátil, porém começou a ser visto como uma alternativa em discussões sobre reservas alternativas”, afirma o relatório.
“Os EUA oficializaram a criação de uma reserva estratégica com status de ativo de segurança nacional, enquanto El Salvador mantém uma política deliberada de acumulação desde 2021. Outros países, como Paquistão, Butão e República Tcheca, já anunciaram ou debatem iniciativas parecidas, mesmo que em estágios diferentes de evolução”, acrescenta.
“Nesse sentido, os fatores que incentivam a busca por ativos escassos, globais e sem risco de contraparte continuam se fortalecendo.”
Blockchain segue progredindo
Outra observação feita pelo banco é que a estrutura do mercado de ativos digitais continuou se desenvolvendo mesmo durante a drástica queda dos preços.
Conforme o relatório, as stablecoins atingiram cerca de US$ 311,5 bilhões em capitalização de mercado, crescimento de cerca de 23% em 12 meses.
Já a tokenização de ativos atingiu aproximadamente US$ 31,8 bilhões, expansão de cerca de 160% no mesmo período.
“Ambos [stablecoins e tokenização] consolidam a blockchain como uma estrutura financeira, ao permitirem liquidação instantânea, digitalização de ativos, operação global e disponibilidade 24/7. A adoção da tecnologia seguiu avançando em meio a uma forte correção de preços”, diz o BTG.
Bitcoin (BTC) está acessível?
Para avaliar se o momento atual, de fato, proporciona uma boa relação entre risco e retorno, o banco examinou indicadores como:
O agrupamento dessas métricas, segundo os analistas, indica se o preço presente está desvalorizado em relação ao comportamento histórico da criptomoeda.
E, de acordo com o relatório, o conjunto de sinais posiciona o BTC entre os 10% dos dias mais econômicos de toda a série histórica, um patamar que, em ciclos antecedentes, foi seguido por retornos mais favoráveis para investidores com perspectivas de médio e longo prazo.
O BTG enfatiza, contudo, que isso não implica que o mercado atingiu necessariamente uma mínima.
“A demanda ainda está fragilizada. ETFs continuam sob pressão, tesourarias corporativas perderam parte da capacidade de absorção e a IA ainda monopoliza a atenção em setores de tecnologia.”
Frente a esse cenário, o banco aconselha que investidores evitem tentar prever o momento exato da queda dos preços.
A sugest
Fonte: Money Times
